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PASTORAL VOCACIONAL - Fundamentos
VOCAÇÃO E VOCACIONADOS(AS) BÍBLIA
1- Abraão e Sara: chamados para formar um povo
Os textos que falam da vocação de Abraão são: Gn 12,1-9; Sb 10,5; At 7, 2-3 e Hb 11, 8. Abraão, ainda chamado de Abrão, é chamado por Deus, quando ainda estava em Ur, na Caldeia, para iniciar uma peregrinação. Naquele então, levas de forasteiros deixam suas terras em buscas de uma vida melhor no Egito. Abraão e sua família eram um deles. Na caminhada ocorre o chamado. Abraão deixa a sua terra e se estabelece em Canaã, antes mesmo de chegar no Egito. Ele e Sara crêem na promessa de uma terra farta, descendência numerosa e eternidade da bênção divina. Em Abraão todos os povos da terra serão benditos (Gn 12, 19). O livro da Sabedoria conservou a memória da trajetória vocacional de Abraão como homem justo, forte e pleno de Sabedoria. A carta aos Hebreus destaca a fé de Abraão e Sara na promessa. Eles foram obedientes ao chamado. Os elementos da vocação de Abraão e Sara são: fé na promessa divina, sabedoria na vivencia do chamado, certeza que Deus o chamou e caminha com ele.
2- Sara, Agar e Rebeca: sacerdotizas e visionárias
As matriarcas Sara, Agar e Rebeca se destacam na história do povo da Bíblia. Elas exerceram, em um mundo patriarcal, o chamado, a vocação de modo provocador. Elas controlaram seus corpos, vivendo como educadoras, sacerdotisas e visionárias2. Os patriarcas procuraram manter o controle sobre elas, mas, ao contrário, elas reagiram e se mostraram capazes de brigar pelos seus interesses, como fez Agar ou até mesmo tramar com o marido a escolha de um filho em detrimento do outro, como no caso de Rebeca.
A vocação de Sara e Agar se parecem. Estas duas mulheres têm experiências parecidas. Ambas vivem em terra estrangeira. Sara é da Mesopotâmia e Agar, do Egito. Sara e Agar têm o mesmo marido, um único filho e são escolhidas por Deus para se tornarem mãe de um povo.
Agar foi a mulher que complicou a história da salvação, como escreveu Elza Tamez. Por este seu papel decidido, a sua história se impôs no texto canônico da Bíblia.
Rebeca, que em hebraico significa a “Amarradora”, derivado de raiz rbq, “aquela que amarra com rapidez”, em meio aos homens Isaac, Esaú e Jacó, consegue dar um novo rumo ao curso da história 3. Jacó continua a linhagem dos patriarcas, mesmo não sendo o primogênito. Esaú pagou caro pelo seu casamento com mulheres hititas. E o poder dos homens é aqui diminuído pela ação de Rebeca.
3 – José: vocação narrada em forma de novela
Os textos que falam da vocação e vida de José são: Gn 37-50. Filho predileto de Jacó, José era não muito querido pelos seus irmãos. Ele foi vendido aos mercadores madianitas. Ele acabou indo morar no Egito, onde, de prisioneiro, chegou a ser general do Faraó. A história de José e conservada na Bíblia tem como um dos objetivos justificar a importância da monarquia em Israel. José é escolhido, chamado por Deus, para manter o seu povo vivo em tempos de penúria. O modo como a “Novela José do Egito” é construída demonstra está máxima. A sabedoria e a astúcia de José manteve o povo de Deus no caminho de santificação. Os elementos essenciais da vocação de José são: predileção, sabedoria para governar, decifrar sonhos, interpretar os acontecimentos da vida.
4 – Moisés: a vocação de um libertador
A trajetória da vocação de Moisés aparece em Ex 3, 1-15; 4, 1-17; 6, 2-13: 6, 28-30; 7,1-7. Deus chama Moisés numa chama de fogo, do meio de uma sarça que ardia, mas não se consumia. Deus o chama pelo nome: “Moisés, Moisés”. E ele responde prontamente: “Eis me aqui.” Deus se apresenta e convoca Moisés para voltar ao Egito e libertar o seu povo. Moisés tinha consciência da questão. De lá, ele havia fugido. Esta narrativa que mostrar o caminho vocacional de Moisés: ele tem consciência da situação, sabe que Deus o chama, mas tem medo. Ele apela para vários argumentos, dentre eles, o não saber falar, isto é, não a tarimba de profeta. Isto não é verdade, mas Deus aceita e coloca o irmão pra ajuda-lo. Na verdade, nisto está a justificativa da necessidade do sacerdócio, representado na pessoa de Aarão, para a realização da vocação de Moisés. Moisés recebe o poder de falar com o Faraó, na pessoa de seu irmão Aarão. Moisés já tinha 80 anos, quando foi chamado, isto quer dizer que ele era sábio. Os elementos essenciais da vocação de Moisés são: tomada de consciência da realidade, medo, rejeição do chamado, autoridade divina para denunciar a injustiça, intermediador entre Deus e o seu povo, libertador do seu povo, certeza que Deus Libertador caminha com ele.
5 – Aarão: vocação de intérprete e sacerdote
Ex 29 e Eclo 45, 6-26 contam como Deus escolheu Aarão para ser o seu sacerdote. Aarão e seus filhos são ungidos para este ministério. Aarão fora também escolhido para falar em nome, ser o intérprete de Moisés. Os elementos essenciais da vocação de Aarão são: escolha e unção sacerdotal, interprete da palavra de seu irmão Moisés.
6 – Josué: chamado para continuar a missão de Moisés
Os textos que falam da vocação de Josué são: Dt 31, 1-8; Js 1,1-9. Quando Moisés morre, ele passa a sua missão para Josué. Deus promete que estará sempre com ele e o pede para ser forte e corajoso, seguir a Lei e conduzir o povo até a Terra da Promessa. Interessante é que o antes medroso Moisés agora, no fim da carreira, pede a Josué para não ter medo. Os elementos essenciais da vocação de Josué são: continuar da vocação de Moisés, coragem para lutar e vencer os inimigos, conduzir o povo, manter a identidade do povo a Lei de Deus, certeza que Deus caminha com ele.
7 – Samuel: mediador entre Deus e o povo
Os textos que falam da vocação de Samuel são: 1Sm 3,1-21-4,1. Samuel, ainda menino servido a Deus no templo, ouve de Deus o chamado. A corrupção andava solta em Israel. Os filhos do sacerdote Elí não agradavam a Deus com as suas ações injustas. O chamado de Samuel foi para denunciar esta situação a Eli e a todo o povo. Samuel e tornou-se juiz, profeta, sacerdote e chefe de exercito. Samuel foi comparado a Moisés (Jr 15,1). Os elementos essenciais da vocação de Samuel são: não compreensão do chamado, escolha de Deus para a missão especifica de denunciar e reconduzir o povo para Deus, fazer a passagem do tribalismo para a monarquia, ser abençoado por Deus, ser mediador entre Deus e o povo.
8 – Saul: escolhido e consagrado
Os textos que falam de Saul são: 1Sm 9,1.27- 10,8; 16,1. A instalação da monarquia em Israel começa com Saul, benjaminita poderoso, jovem e bonito. Saul é escolhido por Deus e consagrado por Samuel. Os elementos essenciais da vocação de Saul são: escolha divina, consagração, ação política de julgamento e condução do povo, rejeição divina.
9 – Davi: vocação vivida no erro e na santidade
A vocação de Davi é descrita em 1Sm 16, 1-23. A memória do povo conservou a imagem de Davi como homem justo, piedoso e pecador. A sua escolha foi feita por Deus, quando ainda era menino. Saul não cumpriu bem a sua vocação. Samuel recebe o encargo divino de ir até a casa de Davi e ungi-lo como futuro rei e escolhido de Deus. A primeira proeza de Davi foi a de vencer o inimigo gingante Golias. Com maestria Davi, mesmo sendo rejeitado por Saul, torna-se amigo da família real, conquista o poder com calma e habilidade política. Governa com justiça e inicia a dinastia davídica, da qual nasceria o Messias. Os elementos essenciais da vocação de Davi são: escolha divina, unção, diálogo com Deus e o povo.
10 – Elias: o profeta do povo
O primeiro livro dos Reis 18 e 19 narram a vocação de Elias. Profeta que deixa a corte para viver com povo, Elias recebe a missão de Deus de denunciar as injustiças do rei Acab e constituir Jeú como novo rei de Israel. Os elementos essenciais da vocação de Elias são: fala em nome de Deus, denuncia as injustiças, ação política em defesa dos pobres.
11 – Eliseu: chamado para continuar a missão de Elias
Para continuar a missão de Elias, 1Rs 19, 16.19-21 conta que Elias o ungiu como seu sucessor. Elias o chama, mas Eliseu retruca pedindo para ir despedir-se de seu pai e de sua mãe. Em 2 Rs 2 narra a arrebatação de Elias ao céu e confirmação da missão de Eliseu, através do manto de Elias. Os elementos essenciais da vocação de Eliseu são: escolha, unção, pedido para despedir-se dos pais e confirmação da missão.
12- Isaías: vocação para denunciar e anunciar
Is 6, 1-10 narra a vocação do Isaías. Ela ocorre por meio de uma visão de Deus sentado no trono, com vestes que cobria o santuário e rodeado de seranfins, os quais proclamam a grandeza de Deus. Isaías toma consciência de sua limitação, de sua condição de pecador. Um dos anjos vem com uma brasa e lhe toca a boca, purificando-o e perdoando os seus pecados. Nisto está a escolha. Isaías aceita o chamado e recebe a missão de ser profeta, de denunciar o pecado do povo. Os elementos essenciais da vocação de Isaías são: visão, consagração através da boca com o toque da brasa purificadora, aceitação da missão.
13 – Jeremias: vocação marcada pelo medo
A vocação de Jeremias é descrita em um texto de bela construção literária em Jr 1,4-10. Deus se revela a Jeremias e lhe dá missão, tacando a sua boca, colocando as suas palavras na boca de Jeremias. Jeremias retruca dizendo que não sabe falar. A missão de Jeremias é a de destruir, arrancar e plantar a justiça divina. Jeremias teve medo de assumir o seu chamado. Ele dizia o que o povo não queria ouvir. O exílio da Babilônia é culpa vossa e não de vossos pais, dizia. Assumam os seus erros e mudem de vida. Os elementos essenciais da vocação de Jeremias são: escolha desde o ventre materno, consagração, rejeição e medo da missão, confirmação da missão com o toque da mão de Deus na boca de Jeremias.
Jeremias é o profeta medroso. O seu nascimento foi cercado de alegria na casa paterna (Jr 20,15). Jeremias, no entanto, quando já crescido amaldiçoa o dia do seu nascimento: “Maldito o dia em que nasci” (Jr 20,14). Ele demonstra claramente que não queria ter nascido. A sua mãe levou a culpa: “Minha mãe teria sido minha sepultura” (Jr 20,17). “Mãe, minha desgraça é a vida que a senhora me deu” (Jr 15,10).
O não querer assumir a vocação fez de Jeremias um homem de medo. Jeremias sabia que não era fácil viver como profeta. Deus o havia constituído para “destruir, demolir e plantar” (Jr 1,10). “Ah! Senhor Deus, eis que eu não sei falar, porque ainda sou uma criança!” (Jr 1,6). Neste processo vocacional, Deus insiste com seu escolhido: “Não tenhas medo deles, para que eu não te faça ter medo deles” (Jr 1, 17).
Jeremias viveu na roça. Não se casou. Conhecedor do sofrimento de seu povo, Jeremias sabia que algo deveria ser feito, mas ele tinha medo. No ano 627 antes da Era Comum, no décimo terceiro ano do governo de Josias, Jeremias sente o chamado de Deus. O livro que leva o seu nome descreve os elementos essenciais desta vocação nos seguintes pontos:
Deus quando chama alguém é porque este já é íntimo seu. “Antes mesmo de te formar no ventre materno, eu te conheci; antes que saísses do seio, eu te consagrei” (Jr 1,1-5). Com estas palavras, Jeremias narra a sua experiência de Deus, remetida às entranhas de seu nascimento.
A missão mesma, a sua realização, confirma o chamado. Jeremias tem consciência que ele é um consagrado. “Eu te consagrei” (Jr 1,5b). Ele tem consciência que esta é a sua missão. Ele na sabe fazer outra coisa que ser profeta.
O medo e outras limitações humanas são inerentes à vocação. Jeremias, de tanto medo diante do chamado, diz que não sabe falar. “Eu sou criança” (Jr 1,6). Jeremias sabe que ele não pode ser outra pessoa. Ele é Jeremias, e basta.
O profeta é porta-voz de Deus (Jr 1,7). Jeremias terá que falar em nome de Deus em sintonia com o povo a quem ele foi enviado por Deus. Deus estará com ele sempre.
O profeta é abençoado por Deus. As palavras de Deus são colocadas em sua boca, para que ele fale em nome de Deus (Jr 1,10).
O profeta é seduzido por Deus. “Tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir” (Jr 20,7). Estas palavras proferidas por Jeremias demonstram como ele compreendeu o mistério da vocação em sua vida. Deus mudou a vida de Jeremias.
14 – Jonas: medo de anunciar
Este é um personagem bíblico de grande valor para todos nós. A sua ação profética e o simbolismo que moldura a sua história, com certeza, iluminam o nosso caminhar para Deus. Jonas somos todos nós, quando cultivamos medos que nos impedem de ir em frente nos caminhos da vida. Medo de sair proclamando a Palavra que liberta, medo de mergulhar no sagrado, medo de assumir responsabilidades que a vida nos impõe. Jonas nos convoca a mergulha nos mais profundo de nós mesmos, a fazer uma viagem interior ao túnel do tempo, para superar traumas e recobrar forças para o presente. O tema do nosso retiro é: “Jonas: Levanta-te e desperta-te do teu medo”!
O livro de Jonas apresenta a história do todo ser humano que vive o medo. Jonas, em hebraico, Yoná,, significa pomba de asas aparadas. No imaginário coletivo, Jonas é aquele que esteve dentro da “baleia”.
Deitado, ele não quer se levantar para pôr-se a caminho em direção a Nínive, a cidade do inimigo povo Assírio, o qual destruiu Israel. Jonas não acredita que Deus o chama para anunciar a boa nova ao opressor. Ele não crê que o opressor possa se salvar. Deus o chama para profetizar e ele foge da tarefa. Ele prefere ir para a colônia de férias, Tarsis. No barco para Tarsis, a tempestade, o capitão e os marinheiros representam a presença de Deus que continua desafiar Jonas. Para salvar a todos, Jonas é jogado ao mar. Ele cai justamente no interior de um peixe grande. Nesse momento, Jonas toma consciência de seus atos, ele mergulha no silêncio de si mesmo, enfrenta o mostro do mar, lugar do perigo, que mora dentro dele mesmo.
Todos nós, em nossas vidas, desde o nascer ao morrer, passamos por experiências de medo e desejo. A vontade, o desejo de nascer nos impulsiona para fora do ventre da mãe. É preciso se libertar. Nessa libertação perdurará sempre o medo de morrer.
A criança tem desejo da presença da mãe e medo da sua ausência. Muitos não chegam a superar essa fase e carregam sempre dentro de si as amarras do cordão umbilical. Muitas mães não querem que seus filhos se tornem adultos. A criança ainda pequena tem desejo de seu próprio corpo, mas tem medo de se decompor. As suas próprias fezes a assusta. Já adulto, passamos pela experiência do desejo de união do sexo oposto, misturado com o medo impotência, da castração. Quem não supera essa fase será sempre desintegrado nas relações afetivas.
Na adolescência, o ser humano vive o drama de corresponder ou não à imagem que os pais têm ou gostaria que ele fosse. O distanciar-se dos pais é normal. Uma nova identidade precisa ser forjada. Muitos não superam essa fase e permanecem eternamente no desejo dos pais. Quem passe dessa fase ainda vive o dilema do desejo de autonomia e medo de autonomia. A liberdade custa caro. Ela exige responsabilidade. A vida continua, e aí vem do desejo da unidade com Deus e o medo de perder a representação de Deus. Deus, muitas vezes é projeção de nossas frustrações e desejos. Não queremos que Deus seja aquilo projetamos. Vencer o complexo de Jonas é superar as imagens falsas e frustrações.
Experimentar Deus, tendo como inspiração Jonas, significa colocar todo o nosso corpo em oração e descobrir com ele as nossas alegrias e frustrações. Todos estão convidados entrar no ventre da “baleia” com Jonas, tomar consciência dos medos e frustrações, e rezar com e a partir deles. Vamos ao desafio: rezar com o corpo. Faremos percurso de Jonas: fugir, deixar-se ser lançado no fundo do mar, entrar no ventre da baleia e colocar-se a caminho de Nínive.
15 –Gedeão: medo
O livro de Juízes 6,11-24.36-40 conta vocação de Gedeão, juiz em Israel, que recebeu a missão de libertar seu povo das mãos de Madian. Gedeão argumenta que o seu clã é mais pobre em Manasses e ele é mais novo da casa de seu pai. Deus lhe garante que o acompanhará no exercício da missão e ele aceita o desafio. Com coragem, Gedeão defende o seu povo, luta contra a idolatria. Os elementos essenciais da vocação de Gedeão são: chamado de Deus para uma missão específica, incapacidade de assumir a missão, Deus garante que o acompanhará, aceitação da missão.
16 - João Batista: vocação de anunciar a chegada do Messias
A comunidade de Lucas conservou em Lc 1,5-22.57-80 a história da vocação de João Batista. Deus escolhe o idoso e piedoso casal Isabel e Zacarias para gerar aquele que seria o percussor do Messias. E Isabel ainda era estéril. Deus traça a missão de João Batista: ser consagrado ao Reino, ser pleno do Espírito Santo, converter os filhos de Israel, preparar a vinda do Messias, vida austera no deserto. Os elementos essenciais da vocação de João Batista são: consagração e escolha desde o seio materno, vida austera de anuncio do messias e pregação da justiça.
17 – Maria: vocação para ser a mãe de Deus
É também a comunidade lucana, em Lc 1,26-38, que conserva o chamado desta mulher de vida exemplar em Israel. Um anjo, isto é, Deus mesmo lhe aparece e lhe anuncia que ela seria a mãe do Salvador de Israel. Maria objeta que ela era ainda namorada de José. Ela ainda não tinha tido relacionamento sexual com nenhum homem. Deus lhe garante que a gestação de seu filho seria por obra do Espírito Santo. Maria, sem muito compreender aquela proposta confia e aceita a missão. Os elementos essenciais da vocação de Maria são: chamado, anúncio da missão, rejeição, explicação da missão e aceitação.
18 – Jesus: síntese da vocação profética
A esperança, anunciada pelos profetas de outrora, se concretizou no profeta Jesus, o “ungido do Senhor”, o descendente de Davi, para aqueles que nele acreditaram. É o testemunho que encontramos no Segundo Testamento. Contraditoriamente ao que pensavam os seus compatriotas a respeito do papel do profeta - adivinho que denuncia as falhas dos outros - Jesus mostrou que a sua esperança profética se baseia na conversão do outro, por mais pecador que ele seja. Vários fatos da sua vida elucidam o que afirmamos.
Basta ver, por exemplo, o caso da mulher de má reputação que entra na casa do fariseu, onde Jesus estava comendo (Lc 7, 36-50). Do mesmo modo, o clássico texto de Lc 4,16-30 (Jesus na sinagoga de Nazaré) revela o programa profético de Jesus5. Jesus entra na Sinagoga e lê o texto Is 61, 61,1-2 e se declara como “evangelizador dos pobres”, apresentando a sua plataforma de missão profética e pastoral. A ação de Jesus é marcada pelos seguintes pontos:
1) Jesus toma a Palavra de Deus, dada aos Profetas;
2) Faz a Palavra ressoar aos ouvidos da comunidade reunida, isto é, a sinagoga;
3) Atualiza a Palavra, ao dizer: “hoje se cumpriu”;
4) Jesus se assenta, isto é, fala com autoridade.
Os primeiros cristãos entenderam que Jesus era o profeta prometido, aquele que o Senhor prometeu e que Israel esperava.
Embora tenha reivindicado para si só de forma indireta o título de profeta (Lc 13,13), Jesus foi o profeta por excelência, a síntese de toda ação profética. Ele, na condição de Filho de Deus, sucede aos profetas como último dos mensageiros de Deus. Chamado pelo povo de “João Batista, Elias ou um outro profeta que ressuscitou” (Lc 9,19)6, Jesus, na sinagoga de Nazaré, onde fora criado, leu o texto de Is 61,1-2, com o qual ele confirma a sua ação profética: “O espírito do senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc 4,18-19). Denunciando toda e qualquer forma de injustiça do seu tempo, Jesus anunciou um Reino de justiça, paz e liberdade. E por ele morreu crucificado e ressuscitou. A esperança de um “novo tempo”, realizada em Jesus, se eternizou em todos aqueles que nele acreditaram.
Vários textos narram a vocação de Jesus, a saber: Lc 4, 14-22; Hb 5,1-10; Ap 19,13; Jo 1,1-8.30.36; 3,14-19; 3,31-34; 4,25.26.34; 4,42; 5,30.36.38.43; 6,29.38-40; 6,44.50-51.57; 7,16.28-29.33; 8,16.18; 11,27.42.52; 12,13.27.37.46-49; 14,24.31;15,21; 16,5.27; 17,4.6.8; 17,14.18.21.23.25; 18,11.37; 19; 20,21-22. A realização da vocação de Jesus para o serviço do Reino é expressa de modo claro em Lc 4, 14-22: remir os presos, recuperar a vista dos cegos, restituir a liberdade aos oprimidos e proclamar um ano de graça do Senhor. Os outros textos, ainda acrescentam: ele é filho de Deus, Sumo Sacerdote, princípio de Salvação eterna, Verbo de Deus, Verbo encarnado, Cordeiro de Deus, embaixador de Deus, Messias. Os elementos essenciais da vocação de Jesus são: ser enviado como filho de Deus mesmo, ter o Espírito de Deus com ele, fidelidade incondicional a Deus, ter consciência da sua missão, realização da missão, martírio como conseqüência de sua vocação.
19 - Apóstolos: vocação de propagar os ensinamentos de Jesus
Os textos que contam a vocação dos apóstolos são: Jo 1,35-39.40.51; Lc 5,4-10; Lc 6,12-16; Mc 1,17-20; Mc 2, 13-17; Mt 4,12-22; At 1,15-26. Os judeus que se tornaram apóstolos de Jesus, o fizeram de vários modos: vendo Jesus passar o seguiram (André); ouvem falar de Jesus e o procuram para ser seu discípulo (Pedro); são chamados por Jesus mesmo (Pedro, Levi, Filipe, Simão, André, Tiago, João). A narrativa de Lc 6,12-16, por outro lado, mostra que Jesus chamou os 12 apóstolos ao mesmo tempo, dentre tantos outros que estavam com ele em uma noite de oração. A missão dada por Jesus a estes homens, na maioria pescadores, foi de se tornarem “pescadores de homens”. Matias, que substituiu Judas, foi escolhido em uma assembléia, por meio da invocação do Espírito Santo, critérios estabelecidos pelo grupo – dentre o de ser varão – e sorteio. Os elementos essenciais da vocação dos apóstolos são: chamado pessoal por Jesus; opção de seguir de Jesus; realização da missão de expulsar demônio, curar doentes, ungir, ensinar com autoridade e continuar a missão de Jesus; o escolhido passa a ter o compromisso de adesão pessoal ao mestre, Jesus.
20 – Pedro: pedra, gruta e rejeição à mulher
A literatura bíblica canônica e apócrifa nos legou inúmeros relatos da vida de Pedro e Madalena. Eles são colocados em oposição e disputam liderança apostólica. Um pode ser entendido em relação ao outro.
Pedro tem o seu nome mudado por Jesus, de Pedro para Kephas, que significa “gruta escavada na rocha”. Pedro não e somente Pedra. A igreja construída sob a gruta escavada na rocha muda e muito o sentido de Mt 16,31.
Simão Pedro nasceu na cidade de Betsaida, na Galiléia, às margens do lago de Genesaré, também conhecido por mar da Galiléia. Simeão era o seu nome hebraico (At 15,14; 2Pd 1,1) e Simão, o nome grego. Jesus chamou Pedro, em aramaico, de Kephas (Jo 1,42). Pedro, em português, foi o modo encontrado pelo grego para traduzir Kephas. O nome Simão Pedro, que aparece 20 vezes no Segundo Testamento, é a junção dos seus dois nomes.
Filho de um tal de Jonas, também chamado de João nos evangelhos (Mt 16,17; Jo 1,42; 21,15-17), Pedro era irmão de André e exercia a profissão de pescador (Mc 1,16). O nome hebraico da sua cidade natal, Betsaida, está relacionado à sua profissão, pois significa Casa (Bet) da pesca (saida). Pedro viveu grande parte de sua vida na cidade de Cafarnaum (Mc 1,29). A vida humilde de Pedro, associada à sua capacidade intelectual e o seu vigor em anunciar a boa nova do evangelho ao povo, rendeu-lhe, bem como a João, prisão e interrogatório no Sinédrio dos judeus. E foi neste episódio que os saduceus constataram: “eles são homens iletrados e sem posição social”.
Pedro era casado e morava com a sogra (Lc 4, 38-39). A primeira carta aos Coríntios, capítulo 9, versículo 25, menciona uma mulher que acompanhava Pedro em suas viagens missionárias, a qual poderia ser a sua esposa. A tradição cristã conservou a memória que a mulher de Pedro tornou-se mártir8. O apócrifo A filha de Pedro conta a história de sua filha, Petronília, e menciona também a sua esposa.
Segundo a literatura canônica, Pedro ouve o chamado de Jesus e se coloca ao serviço do Reino de Deus. Os traços da vocação petrina são: Ser companheiro de Jesus; Ser o primaz da comunidade de fé e do grupo dos apóstolos; Ser homem de muita fé na missão libertadora de Jesus; Ter medo; Ter consciência que é pecador; Ter dificuldade em manter-se em oração; Trair Jesus; Ser testemunha da ressurreição de Jesus; Curar; Ressuscitar; Batizar; Visionário; Ser perseguido e preso; Disputar idéias e liderança com Paulo; Ser missionário. Pedro é descrido nos canônicos como discípulo fiel e traidor do mestre. Homem de muita e de pouca fé. Seguidor e traidor dos costumes judaicos. Missionário do Reino de Deus. Homem perseguido e preso pelo império romano e líderes judeus. Coordenador do grupo dos apóstolos/as. Pedro, homem simples que se tornou forte, foi escolhido por Jesus para dirigir a comunidade de seus seguidores, que mais tarde recebeu o nome de Igreja.
As duas cartas atribuídas a Pedro têm como objetivo animar e fortalecer a fé dos irmãos. Esses deveriam procurar sempre o crescimento espiritual e a confiança na verdade da mensagem cristã. Da mesma forma, deveriam tomar cuidado com os falsos mestres que querem tomar o poder e o controle da Igreja de Deus. Jesus voltará outra vez e aí então tudo vai mudar. A esperança dever ser a toda prova. Nada de desânimo! Pedro animou e fortaleceu a comunidade dos primeiros cristãos.
Quem lê os Atos dos Apóstolos depara com um Pedro pregador, milagreiro, visionário e homem de oração. Pedro batiza, ressuscita e tem autoridade para impor as mãos sobre os apóstolos e confirmar-lhes na missão. Pedro tem o poder de decisão na comunidade, relaciona-se bem com as mulheres. Acolhe os pagãos e é um defensor do judaísmo.
A leitura literatura alternativa apócrifa sobre Pedro confirma muitas qualidades de Pedro, citada nos canônicos, maas apontam outras que chegam até contradizer o Pedro canônico. Podemos até falar de um outro Pedro segundo os apócrifos. Em síntese, os apócrifos apresentam Pedro do seguinte modo: Modelo de gnóstico; Ter primazia sobre os outros apóstolos; Disputar a liderança apostólica com Maria Madalena; Contra o poder das mulheres; Ser ciumento; Ser irascível; Visionário; Condenar a magia; Ser amigo de Jesus; Sentimental; Medroso; Taumaturgo; Protetor das viúvas; Defensor da virgindade; Ser perseguido e martirizado; Tem boas relações com o império romano; Anunciador do evangelho e de Jesus ressuscitado.
O estudo que fizemos sobre a pessoa de Pedro e sua atuação no início do cristianismo nos traz luzes e questionamentos sobre a pessoa de Pedro e seu ministério apostólico. Ele não deixa de ser o Pedro papa, pastor e chefe dos apóstolos. No entanto, em tempos de leitura de gênero, descobrir um outro Pedro, de certa maneira, nos desinstala. Em tempos de questionamentos de verdades estabelecidas, não há como fugir desta trajetória. Na outra ponta da linha, no entanto, é bem verdade que todas essas informações sobre o perfil de Pedro devem ser lidas de modo crítico. Nem tudo que a tradição afirmou sobre Pedro nos apócrifos é verdade. Muitos dados foram atribuídos a ele, com o intuito de apresentar uma outra imagem desse personagem controvertido do início do cristianismo. Pedro foi aceito, é claro, como liderança maior do cristianismo, mas ele também teve opositores. E até mesmo, grupos que o queriam como líder, o apresentaram de modo diverso. Por isso, não podemos afirmar simplesmente os apócrifos sobre Pedro são falsos, por isso, não autorizados a falar sobre ele. É preciso dialogar com esses textos. Foi o que procuramos fazer. Nós também somos críticos aos apócrifos. E isso faz bem para a nossa fé, ainda que em alguns pontos de fé em relação a Pedro sejamos desinstalados. Por outro lado, o Pedro canônico também é apresentado de modo positivo e negativo. Os apócrifos só confirmam esse procedimento.
Pedro canônico e Pedro apócrifo descortinam em nós a humanidade que mora dentro de cada um de nós. Somos bons e menos bons. Por ser humano, o humano é sujeito a erros. Somos Pedro Pedra, poder e serviço. Ora um, ora outro. A Igreja petrina, inspirada nas kephas, lá onde moram os pobres, é sempre um desafio para todos nós. São Pedro rogue por nós! Na lida de sua vocação, no seguimento de Jesus, Pedro foi sendo gradativamente lapidado até tornar-se a própria personificação da fidelidade a Cristo e um líder na missão de propagar a mensagem cristã. Que assim sejamos nós, discípulos/as de Pedro.
21- Madalena: apóstola e amada de Jesus
Maria Madalena ou Miriam de Mágdala é uma personagem controvertida na tradição canônica. Duas imagens de sua personalidade foram conservadas no inconsciente coletivo: testemunha primeira da ressurreição e prostituta arrependida. Sendo que a segunda, reina soberana no inconsciente coletivo. As pesquisas recentes sobre Maria Madalena têm colocado em xeque essa ‘inverdade estabelecida’. Madalena não era prostituta. É o que veremos a seguir.
Como o seu próprio nome indica, Maria Madalena é originária da cidade portuária e também colônia de pescadores, Mágdala, que estava à beira ocidental do lago de Genesaré.
Muitas histórias sobre a vida de Madalena foram transmitidas, sendo muitas delas, de caráter lendário. Conta-se que ela era mulher de Pappus ben Judas. Por amor a um soldado romano, das tropas de Herodes Antipas, chamado Panther, ela deixou o seu marido. O tal soldado morava em Mágdala.
Filmes antigos e modernos não cansam de explorar o imaginário coletivo sobre a personagem Maria Madalena. Nunca falta o jargão ‘prostituta’ e, até mesmo, ‘prostituta arrependida’. Há um filme que conta a saga de Madalena, no qual conta-se que ela fugiu com o soldado romano, sendo posteriormente repudiada por ele e violentada sexualmente por outros soldados. Abandonada, ela é acolhida por Jesus, quem expulsa demônios do seu corpo. Nisso está evidente a ligação de possessão demoníaca com a sexualidade. Madalena deixa de ser prostituta do exército romano para seguir a Jesus.
No Segundo Testamento, somente os evangelhos (Marcos, Mateus, Lucas e João) é que nos oferecem informações sobre a personalidade e atividade apostólica de Maria Madalena, dentre as quais, destacamos: Apostola de Jesus; Mulher possessa de 7 demônios; Sustenta financeiramente a Jesus; Mulher sem laços familiares; Testemunha a morte e o enterro de Jesus; Discípula amada de Jesus; Testemunha a ressurreição de Jesus aos irmãos homens, dizendo ‘Eu vi o Senhor’; Tem medo de anunciar que Jesus ressuscitou; Madalena acredita que Jesus ressuscitou; Mulher de oração.
Maria Madalena, segundo a traição canônica dos evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, era uma discípula fiel, apóstola, testemunha ocular da ressurreição. Acompanhou o mestre até o fim. Madalena não deixou perder de vista o seu amado, quem expulsou dela ‘sete demônios’, revigorando-a no seguimento do Reino. Eis uma mulher digna de ser seguida como modelo para os primeiros cristãos. Madalena não foi prostituta, mas mestra qual Jesus, seu amado mestre. É o que veremos na tradição alternativa dos evangelhos apócrifos.
A partir dos dados expostos nas páginas anteriores sobre a atuação de Maria Madalena, e munidos de outras informações, podemos traçar o perfil de Maria Madalena do seguinte modo: Companheira, esposa/consorte e amada de Jesus; Não era prostituta; Personificação terrena da gnose/sabedoria; Mulher que sabe demais; Mulher que faz perguntas; Mulher que chora; Mulher que tem medo; Apóstola de Jesus; Intérprete e confidente de Jesus; Acredita que Jesus é um iluminado; Modelo de gnóstica perfeita; Mulher pneumática/carismática; Ensina que o pecado não existe; Ensina a paz, a harmonia e a integração como caminho de espiritualidade.
Os apócrifos apresentam o perfil de Madalena de modo diversificado. Em Pistis Sophia, ela está mais preocupada com o saber e as revelações de Jesus. No seu Evangelho encontramos a mulher mais próxima daquela dos evangelhos canônicos, mulher discípula, mas com um detalhe a mais: ela é também apóstola, discute como os seus irmãos, os homens, anuncia os ensinamentos do mestre e chora. Essa última característica aparece também em Pistis Sophia.
Em relação à autoridade apostólica de Pedro e de Madalena, nos textos apócrifos ela aparece em várias nuances. Com vimos, uns defendem que Pedro é chefe dos apóstolos. Outros ressaltam a liderança e o apostolado de Madalena, Tiago e Paulo, pessoas não consideradas autoridades apostólicas. Todos eles representam a diversidade do pensamento de origem do cristianismo.
O Evangelho de Madalena mostra como ela restabelece as relações entre os apóstolos, ela os humaniza. A sua função é a de levar os apóstolos a compreender os ensinamentos revelados por Jesus e animá-los no anuncio do Reino de Deus. Assim ela viveu a sua vocação.
22 – Paulo: vocação de continuar a missão de Jesus ressuscitado
Os textos que falam sobre a vocação de Paulo são: At 9,1-19; 22,1-21; 26,2-18. Os três relatos são unânimes em afirmar que Paulo, outrora o perseguidor Saulo, tem uma visão no momento de sua chamada. Jesus se revela a Paulo e lhe dá a missão de anunciar o evangelho da Boa Nova a todos os povos. Paulo dialogo com Jesus, fica cego, é batizado e inicia a sua missão. O simbolismo da luz e cegueira demarca a nova caminhada de Paulo. Cair por terra, que não é de um cavalo, significa a tomada de consciência de seus atos diante de uma missão totalmente diversa: de perseguidor para aliado. Os elementos essenciais da vocação de Paulo são: chamado por Jesus ressuscitado, cegueira, revelação da missão e sua realização.
MENSAGEM DO SANTO PADRE
PARA O 46º DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELAS VOCAÇÕES
(3 DE MAIO DE 2009 - IV DOMINGO DE PÁSCOA)
Tema: «A confiança na iniciativa de Deus e a resposta humana»
Venerados irmãos no episcopado e no sacerdócio, queridos irmãos e irmãs!
Por ocasião do próximo Dia Mundial de Oração pelas Vocações ao sacerdócio e à vida consagrada, que será celebrado no IV Domingo de Páscoa, dia 3 de Maio de 2009, desejo convidar todo o Povo de Deus a refletir sobre o tema: A confiança na iniciativa de Deus e a resposta humana. Não cessa de ressoar na Igreja esta exortação de Jesus aos seus discípulos: «Rogai ao Senhor da messe que envie trabalhadores para a sua messe» (Mt 9, 38). Pedi! O premente apelo do Senhor põe em evidência que a oração pelas vocações deve ser contínua e confiante. De fato, só animada pela oração é que a comunidade cristã pode realmente «ter maior fé e esperança na iniciativa divina» (Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum caritatis, 26).
A vocação ao sacerdócio e à vida consagrada constitui um dom divino especial, que se insere no vasto projeto de amor e salvação que Deus tem para cada pessoa e para a humanidade inteira. O apóstolo Paulo – que recordamos de modo particular durante este Ano Paulino comemorativo dos dois mil anos do seu nascimento –, ao escrever aos Efésios, afirma: «Bendito seja o Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, do alto dos céus, nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo. Foi assim que n’Ele nos escolheu antes da constituição do mundo, para sermos santos e imaculados diante dos seus olhos» (Ef 1, 3-4). Dentro da vocação universal à santidade, sobressai a peculiar iniciativa de Deus ter escolhido alguns para seguirem mais de perto o seu Filho Jesus Cristo tornando-se seus ministros e testemunhas privilegiadas. O divino Mestre chamou pessoalmente os Apóstolos «para andarem com Ele e para os enviar a pregar, com o poder de expulsar demônios» (Mc 3, 14-15); eles, por sua vez, agregaram a si mesmos outros discípulos, fiéis colaboradores no ministério missionário. E assim no decorrer dos séculos, respondendo à vocação do Senhor e dóceis à ação do Espírito Santo, fileiras inumeráveis de presbíteros e pessoas consagradas puseram-se ao serviço total do Evangelho na Igreja. Demos graças ao Senhor, que continua hoje também a convocar trabalhadores para a sua vinha. Se é verdade que, em algumas regiões, se regista uma preocupante carência de presbíteros e que não faltam dificuldades e obstáculos no caminho da Igreja, sustenta-nos a certeza inabalável de que esta é guiada firmemente nas sendas do tempo rumo à realização definitiva do Reino por Ele, o Senhor, que livremente escolhe e convida a segui-Lo pessoas de qualquer cultura e idade, segundo os insondáveis desígnios do seu amor misericordioso.
Por conseguinte o nosso primeiro dever é manter viva, através de uma oração incessante, esta invocação da iniciativa divina nas famílias e nas paróquias, nos movimentos e nas associações empenhados no apostolado, nas comunidades religiosas e em todas as articulações da vida diocesana. Devemos rezar para que todo o povo cristão cresça na confiança em Deus, sabendo que o «Senhor da messe» não cessa de pedir a alguns que livremente disponibilizem a sua existência para colaborar mais intimamente com Ele na obra da salvação. Entretanto, por parte daqueles que são chamados, exige-se-lhes escuta atenta e prudente discernimento, generosa e pronta adesão ao projeto divino, sério aprofundamento do que é próprio da vocação sacerdotal e religiosa para lhe corresponder de modo responsável e convicto. A propósito, o Catecismo da Igreja Católica recorda que a livre iniciativa de Deus requer a resposta livre do ser humano. Uma resposta positiva que sempre pressupõe a aceitação e partilha do projeto que Deus tem para cada um; uma resposta que acolhe a iniciativa amorosa do Senhor e se torna, para quem é chamado, exigência moral vinculativa, homenagem de gratidão a Deus e cooperação total no plano que Ele prossegue na história (cf. n. 2062).
Ao contemplar o mistério eucarístico – onde se exprime sumamente o dom concedido livremente pelo Pai na Pessoa do Filho Unigénito pela salvação dos homens, e a disponibilidade plena e dócil de Cristo para beber completamente o «cálice» da vontade de Deus (cf. Mt 26, 39) – compreendemos melhor como «a confiança na iniciativa de Deus» molde e dê valor à «resposta humana». Na Eucaristia, dom perfeito que realiza o amoroso projeto da redenção do mundo, Jesus imola-Se livremente pela salvação da humanidade. «A Igreja – escreveu o meu amado predecessor João Paulo II – recebeu a Eucaristia de Cristo seu Senhor, não como um dom, embora precioso, entre muitos outros, mas como o dom por excelência, porque dom d’Ele mesmo, da sua Pessoa na humanidade sagrada, e também da sua obra de salvação» (Carta enc. Ecclesia de Eucharistia, 11).
Quem está destinado a perpetuar este mistério salvífico ao longo dos séculos, até ao regresso glorioso do Senhor, são os presbíteros, que podem precisamente contemplar em Cristo eucarístico o modelo exímio de um «diálogo vocacional» entre a livre iniciativa do Pai e a resposta confiante de Cristo. Na celebração eucarística, é o próprio Cristo que age naqueles que Ele escolhe como seus ministros; sustenta-os para que a sua resposta cresça numa dimensão de confiança e de gratidão que dissipe todo o medo, mesmo quando se faz mais intensa a experiência da própria fraqueza (cf. Rm 8, 26-30), ou o ambiente se torna mais hirto de incompreensão ou até de perseguição (cf. Rm 8, 35-39).
A consciência de sermos salvos pelo amor de Cristo, que cada Eucaristia alimenta nos crentes e de modo especial nos sacerdotes, não pode deixar de suscitar neles um confiante abandono a Cristo que deu a vida por nós. Deste modo, acreditar no Senhor e aceitar o seu dom leva a entregar-se a Ele com ânimo agradecido aderindo ao seu projeto salvífico. Se tal acontecer, o «vocacionado» de bom grado abandona tudo e entra na escola do divino Mestre; inicia-se então um fecundo diálogo entre Deus e a pessoa, um misterioso encontro entre o amor do Senhor que chama e a liberdade do ser humano que Lhe responde no amor, sentindo ressoar no seu espírito as palavras de Jesus: «Não fostes vós que Me escolhestes, fui Eu que vos escolhi e vos nomeei para irdes e dardes fruto, e o vosso fruto permanecer» (Jo 15, 16).
Este amoroso enlace entre a iniciativa divina e a resposta humana está presente também, de forma admirável, na vocação à vida consagrada. Recorda o Concílio Vaticano II: «Os conselhos evangélicos de castidade consagrada a Deus, de pobreza e de obediência, visto que fundados sobre a palavra e o exemplo de Cristo e recomendados pelos Apóstolos, pelos Padres, Doutores e Pastores da Igreja, são um dom divino, que a mesma Igreja recebeu do seu Senhor e com a sua graça sempre conserva» (Const. dogm. Lumen gentium, 43). Temos de novo aqui Jesus como o modelo exemplar de total e confiante adesão à vontade do Pai para onde deve olhar a pessoa consagrada. Atraídos por Ele muitos homens e mulheres, desde os primeiros séculos do cristianismo, abandonaram a família, os haveres, as riquezas materiais e tudo aquilo que humanamente é desejável, para seguir generosamente a Cristo e viver sem reservas o seu Evangelho, que se tornou para eles escola de radical santidade. Ainda hoje são muitos os que percorrem este itinerário exigente de perfeição evangélica, e realizam a sua vocação na profissão dos conselhos evangélicos. O testemunho destes nossos irmãos e irmãs, tanto nos mosteiros de vida contemplativa como nos institutos e nas congregações de vida apostólica, recorda ao povo de Deus «aquele mistério do Reino de Deus que já atua na história, mas aguarda a sua plena realização nos céus» (Exort. ap. pós-sinodal Vita consecrata, 1).
Quem pode considerar-se digno de ingressar no ministério sacerdotal? Quem pode abraçar a vida consagrada contando apenas com os seus recursos humanos? Mais uma vez convém reafirmar que a resposta da pessoa à vocação divina – sempre que se esteja consciente de que é Deus a tomar a iniciativa e é Ele também a levar a bom termo o seu projeto salvífico – não se reveste jamais do cálculo medroso do servo preguiçoso, que por medo escondeu na terra o talento que lhe fora confiado (cf. Mt 25, 14-30), mas exprime-se numa pronta adesão ao convite do Senhor, como fez Pedro quando, apesar de ter trabalhado toda a noite sem nada apanhar, não hesitou em lançar novamente as redes confiando na palavra d’Ele (cf. Lc 5, 5). Sem abdicar de forma alguma da responsabilidade pessoal, a resposta livre do homem a Deus torna-se assim «corresponsabilidade», responsabilidade em e com Cristo, em virtude da ação do seu Santo Espírito; faz-se comunhão com Aquele que nos torna capazes de dar muito fruto (cf. Jo 15, 5).
Emblemática resposta humana, repleta de confiança na iniciativa de Deus, é o «Amem» generoso e total da Virgem de Nazaré, pronunciado com humilde e decidida adesão aos desígnios do Altíssimo, que lhe foram comunicados pelo mensageiro celeste (cf. Lc 1, 38). O seu «sim» pronto permitiu-Lhe tornar-Se a Mãe de Deus, a Mãe do nosso Salvador. Maria, depois deste primeiro «Fiat», teve de o repetir muitas outras vezes até ao momento culminante da crucifixão de Jesus, quando «estava junto à cruz», como refere o evangelista João, compartilhando o sofrimento atroz do seu Filho inocente. E foi precisamente da cruz que Jesus agonizante no-La deu como Mãe e a Ela nos entregou como filhos (cf. Jo 19, 26-27) – Mãe especialmente dos sacerdotes e das pessoas consagradas. A Ela quero confiar todos quantos sentem o chamamento de Deus para caminhar pela senda do sacerdócio ministerial ou da vida consagrada.
Queridos amigos, não desanimeis perante as dificuldades e as dúvidas; confiai em Deus e segui fielmente Jesus e sereis as testemunhas da alegria que brota da união íntima com Ele. À imitação da Virgem Maria, que as gerações proclamam bem-aventurada porque acreditou (cf. Lc 1, 48), empenhai-vos com toda a energia espiritual na realização do projeto salvífico do Pai celeste, cultivando no vosso coração, como Ela, a capacidade de maravilhar-se e adorar Aquele que tem o poder de fazer «grandes coisas», porque Santo é o seu nome (cf. Lc 1, 49).
Vaticano, 20 de Janeiro de 2009.
BENEDICTUS PP. XVI
Fonte: http://www.vatican.va
OS JOVENS E A PASTORAL VOCACIONAL
Documento de Aparecida – V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe
“...Na América Latina a maioria da população está formada por jovens. A este respeito, devemos recordar-lhes que sua vocação é ser amigos de Cristo, discípulos, sentinelas do amanhã, como costumava dizer o meu predecessor João Paulo II. Os jovens não temem o sacrifício, mas, sim, uma vida sem sentido. São sensíveis à chamada de Cristo que os convida a segui-lo. Podem responder a essa chamada como sacerdotes, como consagrados e consagradas, ou ainda como pais e mães de família, dedicados totalmente a servir aos seus irmãos com todo o seu tempo, sua capacidade de entrega e com a vida inteira. Os jovens encaram a existência como uma constante descoberta, não se limitando às modas e tendências comuns, indo mais além com uma curiosidade radical acerca do sentido da vida, e de Desu Pai-Criador e Deus-Filho Redentor no sei o da família humana. Eles devem se comprometer pó uma constante renovação do mundo à luz de Deus. Mais ainda: cabe-lhes a tarefa de opor-se às fáceis ilusões da felicidade imediata e dos paraísos enganosos da droga, do prazer, do álcool, junto com todas as formas de violência.(...)”